Terapia Familiar e de Casal


Ao longo dos anos a terapia de família vem evoluindo e se constituindo como uma forma de atender que permite aos terapeutas olhar a relação, o processo, o contexto, como fundamentais para a compreensão e a transformação daquilo que é considerado problemático por quem busca ajuda.

Partimos do princípio de que o que acontece com uma pessoa afeta e tem consequências para as demais e de que as mudanças em um dos membros de uma família, um casal, ou uma dupla pai/mãe e filho/a têm efeitos nos outros membros. Desta maneira, realizamos os atendimentos terapêuticos a famílias e casais através de uma abordagem relacional, colaborativa e dialógica, na qualprivilegiamos os atendimentos e as conversas conjuntas. As inscrições para terapia de família ou casal são efetuadas por telefone; a seguir, os interessados são convidados para uma entrevista presencial em grupo, a nossa “Porta de Entrada”, que acontece uma vez por mês.

 
 
 

 

Visão Sistêmica



Costumamos dizer que o pensamento sistêmico e a terapia familiar que se inspira nesta visão de mundo já nasceu multidisciplinar e aberto – no lugar de um Universo, ou seja, uma realidade objetiva unívoca e igual para todos, um Multiverso, em que cada mundo construído é igualmente válido e único, como diria Humberto Maturana. Ao longo do século XX, todos os fundamentos da ciência tradicional começaram a ser questionados, dando origem a concepções diferentes sobre o mundo, o homem e a própria ciência. Nas ciências humanas não poderia ser diferente e tem lugar um deslocamento na concepção da vida – de uma perspectiva evolucionista, genealógica/genética e linear para uma visão holística, construtivista, não-linear, feita de saltos e descontinuidades – que passa a valorizar também os problemas, os ruídos, as interferências.

Um importante legado para o desenvolvimento do pensamento sistêmico, bem como para o movimento da terapia familiar, foi o trabalho do biólogo, antropólogo e pequisador Gregory Bateson. Ampliando os pressupostos sistêmicos para uma nova concepção de mente, Bateson desenvolveu a ideia de que sempre que se pretende compreender algum fenômeno ou manifestação, este deve ser apreendido dentro do contexto de todos os circuitos completos relevantes para o mesmo. Para ilustrar esta nova maneira de pensar a mente ele propõe a metáfora do lenhador e seu machado:

Consideremos o caso de um homem que derruba uma árvore com um machado. Cada golpe do machado deve ser corrigido de acordo com a superfície de corte da árvore cada vez que soltar uma lasca. Em outras palavras, o sistema que mostra características mentais é o circuito completo que vai desde a árvore até os órgãos sensoriais do homem, através do cérebro aos músculos e ao machado e novamente até a árvore. Este não é o tipo de unidade que os psicólogos estão acostumados a considerar, mas é a unidade na qual a teoria dos sistemas os vai obrigar a pensar. É fácil perceber que essa mudança de perspectiva, isto é, em lugar de pensar o 'homem versus a árvore' passar a pensar 'o homem como parte de um circuito que inclui a árvore' modificará nossas ideias sobre a natureza do si mesmo, a natureza do poder, da responsabilidade, etc. (Extraído de G. Bateson, Una Unidad Sagrada. Pasos ulteriores hacia una ecología de la mente. Gedisa Editorial, 1993).


Além da ênfase no contexto e na ideia de que o todo é sempre mais do que a soma das partes, os profissionais que trabalham no paradigma ou visão sistêmica propõem que os significados dos acontecimentos e ações humanas são sempre socialmente construídos, sendo mais grupais do que individuais, assim como são socialmente construídas as lentes através das quais olhamos o que chamamos realidade. Gianfranco Cecchin, influente terapeuta familiar italiano, dizia:



É impossível não olhar a realidade através de lentes, essas lentes são uma série de pré-conceitos que aprendemos com os anos: experiências pessoais, da família, da escola, e que começam a ser a forma que se olha a realidade. Quando a gente é criança aprende a olhar com essas lentes, a saber o que é bom e o que é ruim, o que é útil, o que é inútil, a fim de distinguir a realidade. Uma das características dos seres humanos é que outorgamos significados às coisas. Se uma pessoa toca algo e todos tocam essa mesma coisa, provavelmente vamos estar de acordo que essa coisa existe; além disso, aprendemos a interpretar a vida nas conversas com outras pessoas. (Extraído de Los Prejuicios Sistémicos. Entrevista a Gianfranco Cecchin por Claudio des Champs e Fernando Torrente. Disponível em http://www.redsistemica.com.ar/cecchin.htm).


Quando não pensamos sistemicamente, pensamos em termos de causa/efeito, buscando qual é a causa de algo, a verdade ou a realidade. Em contrapartida, numa terapia sistêmica já não acreditamos que iremos “encontrar” ou “descobrir” a realidade; o único que encontramos são padrões, relações, como as pessoas se conectam entre si e também sua forma de ver as coisas.

Desenvolvimentos mais recentes da terapia familiar resultaram numa mudança, tanto no discurso teórico como na prática da terapia. A terapia familiar, que se desenvolveu a partir da mudança paradigmática conhecida como pós-moderna, se insere cada vez mais no campo da linguagem e do significado, dando origem a outros conceitos e outras práticas, como por exemplo, os processos reflexivos, a terapia narrativa, a abordagem dialógica e conversacional, as práticas colaborativas.
 
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